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O papel do Sistema Endocanabinoide na Ansiedade: Uma visão científica além da clínica

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    Odontologia Canabinoide
  • há 7 dias
  • 3 min de leitura

por Gui Martins - 4384 CRO-DF




A ansiedade não é apenas um estado emocional — ela é, fundamentalmente, um fenômeno neurobiológico. Trata-se de um estado de hipervigilância, marcado pela hiperatividade da amígdala, região cerebral central no processamento do medo, da ameaça e do estresse.

Embora os tratamentos convencionais — como antidepressivos e ansiolíticos — sejam amplamente utilizados, a ciência mostra um dado preocupante: apenas cerca de 40 a 60% dos pacientes atingem resposta clínica satisfatória, e muitos não alcançam remissão completa. Isso evidencia uma limitação terapêutica real e abre espaço para novas abordagens baseadas em mecanismos regulatórios mais amplos do organismo.

É nesse contexto que o Sistema Endocanabinoide (SEC) ganha protagonismo.



O Sistema Endocanabinoide como regulador central do estresse



O SEC é um sistema fisiológico distribuído por todo o organismo, com papel central na homeostase, regulando funções como:

  • Humor

  • Resposta ao estresse

  • Sono

  • Dor

  • Processos inflamatórios

Em situações de estresse crônico, ocorre uma disfunção da sinalização endocanabinoide, especialmente envolvendo a anandamida, um endocanabinoide fundamental para o controle da ansiedade. Essa disfunção contribui para a manutenção do estado ansioso, da hipervigilância e da dificuldade de adaptação ao estressor.

Segundo Ethan Russo, essa condição pode ser compreendida dentro do conceito de Deficiência Clínica do Sistema Endocanabinoide, em que o organismo perde eficiência em modular respostas emocionais e autonômicas.



CBD, serotonina e a modulação da ansiedade

O canabidiol (CBD) não atua como um simples agonista direto dos receptores CB1 ou CB2. Seu mecanismo é multifatorial, e um dos pontos mais relevantes — frequentemente negligenciado — é sua interação com o sistema serotoninérgico, especialmente os receptores 5-HT1A.

Estudos demonstram que o CBD:

  • Atua como agonista funcional dos receptores 5-HT1A

  • Aumenta a disponibilidade de anandamida ao inibir sua degradação (via FAAH)

  • Reduz a hiperatividade da amígdala

  • Atenua respostas autonômicas exageradas ao estresse

Essa interação explica por que o CBD apresenta efeitos ansiolíticos, panicolíticos e antidepressivos-like, sem os efeitos colaterais clássicos de muitos psicofármacos.



A resposta em “U”: por que a dose é crucial


Um dos conceitos mais importantes — e mais ignorados — na prática clínica é a resposta bifásica dos canabinoides.

A literatura demonstra que o CBD segue uma curva em “U”:

  • Doses baixas → frequentemente sem efeito clínico

  • Doses intermediárias → maior efeito ansiolítico

  • Doses altas → perda de eficácia

Um estudo clínico clássico mostrou que 300 mg de CBD reduziram significativamente a ansiedade em testes experimentais, enquanto doses menores (150 mg) e maiores (600 mg) não produziram o mesmo efeito.

Isso reforça um princípio central do CLUB – Além da Clínica:

"Canabinoides não são sobre quantidade, são sobre estratégia terapêutica, titulação e individualização."

Além da clínica: integrar ciência, corpo e sistema nervoso

A modulação da ansiedade não pode ser vista de forma isolada. Sono, atividade física, nutrição, manejo do estresse e saúde oral fazem parte do mesmo eixo neuroimunológico.

O uso de fitocanabinoides, quando bem indicado, titulado e acompanhado, não substitui o cuidado integral — ele potencializa a capacidade do organismo de se autorregular.

Essa é a essência do cuidado integrativo baseado em ciência:não silenciar sintomas, mas reorganizar sistemas.



Referências bibliográficas

  1. Russo, E. B.Cannabidiol claims and misconceptions.Trends in Pharmacological Sciences, 2017.DOI: 10.1016/j.tips.2017.05.012

  2. Russo, E. B.Clinical endocannabinoid deficiency revisited: can this concept explain the therapeutic benefits of cannabis in migraine, fibromyalgia, irritable bowel syndrome and other treatment-resistant conditions?Neuro Endocrinology Letters, 2016.DOI: 10.1016/j.mehy.2004.02.021

  3. Blessing, E. M., et al.Cannabidiol as a Potential Treatment for Anxiety Disorders.Neurotherapeutics, 2015.DOI: 10.1007/s13311-015-0387-1

  4. Campos, A. C., et al.Mechanisms involved in the anxiolytic-like effects of cannabidiol in animal models.Neuropsychopharmacology, 2013.DOI: 10.1038/npp.2012.215

  5. Bergamaschi, M. M., et al.Cannabidiol reduces the anxiety induced by simulated public speaking in treatment-naïve social phobia patients.Neuropsychopharmacology, 2011.DOI: 10.1038/npp.2011.6

  6. Zuardi, A. W., et al.Inverted U-shaped dose-response curve of the anxiolytic effect of cannabidiol during public speaking.Brazilian Journal of Psychiatry, 2017.DOI: 10.1590/1516-4446-2016-1951


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